Largas Horas
E todo o velho será chorão, decretou-se em tempos imemoriais.
E todo o verdadeiro pai sentirá o peso da saudade e da ausência.
Muitas vezes o poeta plagia nossas emoções, dores e alegrias. Quantas e quantas vezes o artista diz exatamente o que diríamos. Todos somos artistas, mas quase todos temos vergonha de ser.
Volmir Coelho com seu "Poema Rabiscado" consegue expressar com exatidão o que um pai sente pelo filho ou filha.
Cada vez que ouço, não tem como escapar: as lágrimas rolam, rolam, rolam.
E me prende a imensa vontade de voltar quase trinta anos no tempo.
Andava este artista, fotógrafo e chorão pelos distantes campos do Rio Grande, quando em Porto Alegre uma guriazinha esperava com ansiedade o dia de seu quarto aniversário.
Chegado o tão esperado aniversário, ainda andava seu pai envolvido com fotos e vendas.
Diz a mãe que desde cedo, quando havia barulho de elevador parando no andar ou passos no corredor, lá ia o toquinho de gente abrir a porta para abraçar o pai.
E o pai vendendo, viajando, fazendo das tripas coração, para poder chegar o mais cedo possível.
Na capital a alemoazinha plantada junto à porta, sem desistir da espera.
- Manhê, agora acho que é ele! - exclamava feliz.
E os passos não paravam diante da porta e iam rumo a outro apartamento.
A mãe, prevendo a possibilidade da não chegada por imprevistos, quem sabe até por eventual irresponsabilidade do pai - coisa que não era do feitio dele - mas, sempre tem uma primeira vez, alertava:
- Minha filha, o papai está viajando lá longe. Pode estragar o carro, acontecer qualquer coisa que não deixe ele vir. Não precisa ficar o tempo todo perto da porta.
A resposta era incisiva:
- Eu sei que ele vem. Eu conheço meu pai! Hoje é meu aniversário e eu tenho certeza de que ele vem!
Na porta continuava.
E o cantor repete "Largas horas junto à porta a me esperar!"
A Loirinha de plantão, certa de que conhecia o pai e que ele viria.
Meio-dia - nada.
A menininha esperando.
Três horas - nem sinal do pai.
"Largas horas junto à porta ..."
Seis horas, o dia terminando e o pai ausente.
A ansiedade acelerando um coraçãozinho confiante.
- Eu conheço meu pai!
A noite chega, o dia para uma criança quase terminando. O aniversário e o bolo esperando. O pai bem longe.
Naquele tempo não havia celular e as ligações eram difíceis.
As primeira lágrimas rolando pelo rostinho já não tão confiante.
A mãe tentando consolar: "deve ter furado um pneu, estragado o motor do carro, mas ele está vindo." Ela também já não acreditando.
O elevador para no andar.
Passos no corredor.
"Largas horas na porta a me esperar !"
A campanhia toca.
- É ele, mãe! É ele!
"E o troféu maior é o teu sorriso!" - canta Volmir.
A arte sempre imita a vida.
As largas horas junto a porta e o sorriso. ..
Juliana, Juliana:
Perdoa esta crônica atrasada,
Que há muito me acompanha sem eu saber.
Mas que no fundo, lá no fundo de minha alma
Esperava eu voltar a ser menino.
E esperava a menininha crescer ...
São Vicente do Sul, 09 de agosto de 2012.
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